
Opa, posso sentar aí contigo, amigo? Sei lá, não bebo sozinho, não em dias pares. Gosto de viagens solitárias, mas faço amizade até com o boneco do posto que acena pra mim. Com o tempo a gente fica assim, meio vira-lata, já até dou a pata, quer ver? Toca aqui! Ricardo, prazer, qual é a tua graça? Rapaz, aquele sanduíche de pernil lá ta com uma cara horrível, deve estar uma delícia, hein!
Tu parece meio desconfiado, cara. Tu não fica muito na estrada, né não? Hum, viagem de férias, sei como é... Já fui assim, até conversei sobre isso na última cidade onde estive, sexta passada. Relaxa, não vou te pedir nada, a não ser mais um prato pra dividir o sanduíche de pernil aqui comigo, já pedi um pra dona Zezé. Ih, tu não sabe nem o nome da pessoa que te traz a comida? Por aqui, chamar todo mundo pelo nome e sorrir abre mais portas do que teu cargo e teu salário, e digamos que isso vale pra qualquer relação humana que se preze, estando de férias ou não. Sem frescura, pode falar de boca cheia, aqui isso é de bom tom, só tenta não cuspir (mas se sair saiu, fazer o que).
Aí, foi só relaxar mais e tu já ta desembestando a fazer um monte de pergunta, tipo metralhadora do Rambo (Não, aquela clássica mesmo é a do 2, eu acho, mas boa mesmo era aquela dele que tinha a flecha com explosivo na ponta, lembra? Derrubava até helicóptero). Mas péra, vou responder tudo, só antes vou te economizar as perguntas desnecessárias. Viajantes são legais, na maioria das vezes, mas tem coisa que irrita. Fiz até uma lista, olha aqui:
10 coisas para não dizer a um viajante:
- Ai, como você é turista. (JAMAIS chame um viajante de turista)
- O que você vai fazer quando acabar a viagem?
- Achei um pacote ótimo! Avião+Hotel+Tour.
- Mas lá tem feijão? (Pra comer o de sempre, fica em casa)
- E a sua família?
- Um dia vou fazer isso... (Sem planos, esse dia não vai chegar)
- E como você dorme? (De olho fechado, como qualquer outro)
- Que loucura, cara! (Vi ver no escritório pra mim é loucura, mas não fico dizendo isso pra todo mundo que volta do trabalho)
- Mas o mundo tá tão perigoso... (Não, a TV que te diz isso, o mundo é lindo)
- Tira uma foto pro meu facebook?
Legal, né? Algumas delas eu escrevi, outras foram me dizendo ao longo da estrada, mas no geral tudo isso faz parte do inconsciente coletivo estradeiro. Mas olha, tu já começou bem, pois tu pergunta ao invés de falar mais de si, ajuda muito! Por sinal, já falamos muito de mim, né? Não, não quero começar sabendo o que tu faz da vida, a não ser que você seja um mestre cervejeiro. Mas já que estamos falando disso, vamos deixar a prosa mais desafiante: o que você faria da vida se o dinheiro não fosse necessário? Claro que acho o dinheiro importante, mas gosto de isolar esse fator pra você pensar no que faria por felicidade. Pois é, a prosa rende, né? Faz o seguinte, pede aí a cerveja.
- Dona Zézé, uma bem gelada aqui pro Ricardo e pra mim. Aliás, traz um terceiro copo e senta aqui com a gente, que tal?
Rapaz, tu aprende rápido, hein! Vamos deixar esse papo de profissões pra próxima rodada. Dona Zezé deve ter uns causos legais também.
